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27.02.2014 - Os desafios de jovens que vivem no meio rural

27 de Fevereiro de 2014

Para saber um pouco mais sobre a juventude rural, representada hoje por 8 milhões de jovens, com idade entre 15 e 29 anos, a Ascom/SNJ conversou com Deraldo, Oscar, Thiago, Marielle e Gilmária, que nos contam um pouco da realidade e dos desafios encontrados por jovens que buscam, através da participação política, melhorar a vida no campo.

De acordo com a Secretaria Nacional de Juventude, em 2011 e 2012, a juventude rural,  organizada em diferentes movimentos sociais, apresentou suas demandas ao governo federal, apontando a ausência de uma política estruturada para esse público. A principal reivindicação dos jovens do campo e da floresta é de que o país reconheça seu papel estratégico no processo de desenvolvimento sustentável, respeitando a  sua diversidade étnica, cultural e regional.

Nesse sentido, eles defendem a criação de uma política específica para os jovens da agricultura familiar, camponesa, assalariada rural, e para os povos e comunidades tradicionais, com foco no associativismo e cooperativismo; valorização de práticas agroecológicas alternativas; acesso à terra e reforma agrária; produção e fruição cultural; inclusão digital; qualificação técnica e garantia do acesso à educação e ao lazer;  o que contribuirá para que esses jovens permaneçam em seus territórios, de onde têm saído por falta de oportunidades.

Diante desse cenário, a SNJ, que é vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República, tem se empenhado em articular o governo federal para atender a essa demanda, por considerar que os jovens do campo continuam excluídos, apesar dos avanços das políticas públicas registrados na última década.  Na opinião da secretária Severine Macedo é preciso valorizar o protagonismo dessa juventude, por meio de ações concretas que garantam a sua autonomia como sujeito político, econômico e social.

Para saber um pouco mais sobre a juventude rural, representada hoje por 8 milhões de jovens, com idade entre 15 e 29 anos, a Ascom conversou com Deraldo, Oscar, Thiago, Marielle e Gilmária, que nos contam um pouco da realidade e dos desafios encontrados por jovens que buscam, através da participação política, melhorar a vida no campo. Nessa reportagem, estes jovens do interior do estado de Alagoas falam de sua permanência no campo e contam quais são os seus maiores anseios, dificuldades e sonhos.

Deraldo Maciel, 25 anos, agricultor familiar, reside com seus pais  no Sítio Fazenda Nova, localizado a 16 quilômetros da cidade de São José da Tapera (AL). Geralmente Deraldo acessa a cidade pelos meios de transporte utilizados por grande parte da população local: o pau de arara, veículo irregular que adapta caminhões para levar passageiros. Apesar das dificuldades, ele identificou na participação política uma forma de enfrentar a realidade. Deraldo é Secretário de Juventude do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais  de São José da Tapera e cursa o 3° período de Ciências Sociais a distância (EAD) pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Segundo os entrevistados, os conselhos municipais têm sido um incentivo para superar as dificuldades.  Apesar do pouco estímulo à participação, nos municípios, Deraldo Maciel destaca como uma importante vitória a eleição de um jovem à Câmara Municipal e enfatiza a aprovação do Estatuto da Juventude na esfera  municipal. “Essa é uma pauta nossa, participamos da II Conferência Nacional de Juventude, reconhecemos que muitas coisas foram feitas e que temos uma atuação relevante na construção das políticas públicas”, diz.

Assim como Deraldo, o jovem Oscar Alan, 25 anos, morador da cidade de Pão de Açúcar, no interior de Alagoas, é Secretário de Juventude do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais  de seu município . Atualmente está concluindo o curso de Pedagogia em uma faculdade privada, com a ajuda do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Oscar aponta que um dos grandes desafios para a juventude que reside no campo é a garantia de permanência ali, dificultada pela falta de investimentos no acesso à educação, saúde e participação. Isso, no entanto, não muda sua decisão de continuar no meio rural. “Como o nosso sindicato é ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), isso fortalece a participação política de outros jovens, em diferentes municípios, demonstrando que não estamos sozinhos na luta”, ressalta.

Oscar avalia que localmente a juventude vem se movimentando, porém, não há muito desenvolvimento na luta por direitos. “Ainda falta muito para uma política que transforme as pessoas e as tornem emancipadas”, conclui.

Já nas ações nacionais, assim como Deraldo, Oscar também vê como uma vitória a  aprovação do Estatuto da Juventude, além da criação dos diversos organismos de juventude. Por outro lado, ele pondera que alguns programas podem melhorar, como é o caso do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar  (Pronaf) Jovem, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que trata de uma linha de crédito para jovens agricultores. “O acesso a esse programa ainda é muito burocrático”, diz.

O jovem ressalta alguns direitos mais urgentes para a juventude no campo, como o direito à vida, à autonomia econômica, saúde e educação de qualidade. “Esses são os quatro pilares que inclusive norteiam a nossa atuação política no contexto rural”, afirma.

Do sítio para a Câmara de Vereadores

Thiago Santos Gomes, 25 anos, é vereador e cresceu em meio ao sustento da agricultura familiar. É também vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de São José de Tapera (AL) e um dos fundadores da Comissão de Jovens Rurais. Thiago defende, entre outros direitos, mais oportunidades para o jovem produtor. “A maioria dos jovens agricultores são autônomos. Eles precisam mais do que qualificação, precisam de um acompanhamento empreendedor e mais crédito para investir na produção e melhorias no campo”, diz.

Os desafios da educação no campo

Gilmária Silva dos Santos, 24 anos, reside atualmente na cidade de Santana do Ipanema (AL), mas passou boa parte da sua vida em sua cidade natal, Riacho Grande, no mesmo estado. Estudou Pedagogia na Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), na cidade de Arapiraca. Ela conta que voltava das aulas às 19 horas, chegava em casa por volta de  meia-noite, mas houve dias em que chegou a dormir na estrada, pois quando chovia na região, a travessia fica inviável. “Aqui os mais persistentes sonham em pelo menos terminar a faculdade”, revela.

Mobilidade é uma palavra que aparece muito entre as principais demandas da juventude rural. Polos de educação a distância é uma alternativa para que os jovens possam estudar. Este fato traz mais um desafio para as políticas públicas de juventude da zona rural: o acesso à internet. Segundo a pesquisa Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC),  publicada em 2013 pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br), 77% da população rural nunca havia acessado a internet até o ano de 2012.

Jovens como Marielle dos Santos Silva, 27 anos, graduada em Administração por um curso a distância faz parte de uma minoria.  A jovem moradora de São José de Tapera relata que, pela dificuldade de locomoção,  muitos jovens desistem de terminar o curso. Atualmente Marielle é diretora da Secretaria de Mulheres do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de seu município e reclama da falta de acesso à comunicação e também à cultura. “Somos muito ligados a fenômenos culturais como a Festa de São João, mas não possuímos recursos para investir em quadrilhas e participar de competições ou ir ao cinema assistir um filme brasileiro”, conta.

 

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